"em silêncio descobri essa cidade no mapa"
Herberto Helder

 


"A ausência de sonho como alicerce de uma sociedade inteira, disse ela, uma sociedade sem desejos, sem paixão, e por isso ordenada, programada, bem adaptada ao seu próprio trilho, é preciso esmagar o desejo como forma de rotura, porque se de repente todos começassem a desejar, a imaginar, o mundo conhecido cairia por terra e entrar-se-ia noutro, diferente, e é essa possibilidade aterradora que é preciso esmagar a todo o custo, eu bem sei que seria perigoso, porque se de repente alguém dissesse: quem odiar a sua vida ao meio dia abra a janela e salte, toda a gente saltaria ao bater do meio dia e a rua ficaria de repente cheia de pessoas inadvertidamente mortas, mas por outro lado só quando se compreende que a alternativa é mudar a vida ou saltar da janela se adquire a exacta perspectiva das coisas."

/ Teolinda Gersão, O Silêncio

 


Sussurrando:

/ Nouvelle Vague, Guns Of Brixton

 


"Mas a literatura também se converteu em silêncio, tornou-se apenas imanente, as palavras ficam cercadas, bloqueadas, e encontra-se sempre um meio de demonstrar às pessoas que elas significam tudo, e que, portanto, não significam nada, a palavra escrita é uma palavra morta e por isso eu quero a palavra dita, rente ao corpo, inseparada do corpo, língua, boca, braço, mão, gesto, movimento do eu e do outro, do eu para os outros e de novo destes para mim, a palavra que está no princípio do eu e do mundo e da vida e que é talvez, talvez, o amor"

/ Teolinda Gersão, O Silêncio

 


"hey
been trying to meet you
hey
must be a devil between us
or whores in my head
whores at my door
whores in my bed
but hey
where
have you
been if you go i will surely die
we're chained

uh said the man to the lady
uh said the lady to the man she adored
and the whores like a choir
go uh all night
and mary ain't you tired of this
uh
is
the
sound
that the mother makes when the baby breaks
we're chained"

/ Pixies, Hey

 


"A cidade caía
casa a casa
do céu sobre as colinas,
construída de cima para baixo
por chuvas e neblinas,
encontrava
a outra cidade que subia
do chão com o luar
das janelas acesas
e no ar
o choque as destruía
silenciosamente,
de modo que se via
apenas a cidade inexistente."

/ Carlos de Oliveira, Nevoeiro

 


"A profunda harmonia entre ela e o mundo - uma harmonia difícil, instável, porque ela insistia sempre em viver com rigor, com uma atenção que não afrouxava nunca, mesmo quando dormia - o rigor, por exemplo, com que domava ou desmanchava os sonhos, obrigando-se a lembrá-los, obrigando-os a saltar por dentro de arcos incendiados, as flores imaginadas formando finalmente um ramo, as flores de sombra, de sol, de areia, domar o vento, aprender a cavalgar o vento, pôr um risco de azul a contornar o mar, a dura acrobacia do seu corpo, ao mesmo tempo solto e geométrico, os difíceis exercícios interiores, os saltos mortais de olhos vendados sobre um fio de arame estendido entre o possível e o impossível."

/ Teolinda Gersão, Os Guarda-Chuvas Cintilantes

 


"estás diante do espelho e não tens nome
é o espelho que to rouba?

por isso podes olhar a pequena névoa da morte,
que faz um halo em redor da tua cara.
onde tens um vinco a direito, dividindo o quê?

Depois, a névoa cresce como o nevoeiro sobre um lago antigo.
Sentes vagarosamente o arruído da água nesse espelho indeciso
e moroso como o de um filme onde falam baixo.

O sopro sobrevivente faz crescer a névoa.
Escreves nela como um dedo o outro nome.
Então retiras-te longa e repetidamente como a maré

de um mar em branco"

/ Manuel Gusmão, Mapas o Assombro a Sombra

 


"1 IN 12 CHILDREN WORLDWIDE INVOLVED IN CHILD LABOR, SAYS UN.

LONDON (AP) - One in 12 of the world's children is involved in the worst forms of child labor, including slavery, forced labor, hazardous work, militant action and the commercial sex industry, according to a report published Monday by the U.N. child welfare agency, UNICEF.

UNICEF UK said that globally, 352 million children aged 5 to 17 are engaged in some type of work, including 211 million who work in family homes or farms.

Ninety-seven percent of all working children live in developing countries; in Africa alone, nearly half the children between 5 and 14 are working, the agency said.

The report said children are driven into work and exploitation by poverty and inadequate education, exacerbated by the effects of HIV and AIDS.

(...) Globally, an estimated 114 million children of primary school age are not enrolled in school, depriving one in five children of an education.

UNICEF says children are exploited wherever there are gaps in the structures created to protect them.

Even in developing countries, they are often exposed to unacceptable risks; in Britain, for example there are large holes in the protection provided for children trafficked into the country from abroad to work.

/ Associated Press

 


"(Don't hold back)
cuz you woke up in the morning with initiative to move, so why make it harder

(Don't hold back)
If you think about it so many people do, be cool man, look smarter

(Don't hold back)
and you shouldn't even care, about the losers in the air, and their crooked stares,

(Don't hold back)
cuz there's a party over here, so you might aswell be here, where the people care,

The world is holding back
the time has come to...

Galvanize,

(Don't hold back)
If you think about it too much you may stumble, trip up fall on your face,

(Don't hold back)
You think it is time you get up fresh style like a sit-up come on keep pace

(Don't hold back)
Put apprehension on the back burner, let it sit, don't even get it lit,

(Don't hold back)
Get involved with the jam, don't be a prick, hot chick

(Don't hold back)

The World

The World
The time has come to
Push the button

The World

My finger is on the button
My finger is on the button
My finger is on the button
Push the button
The time has come to...

Galvanize"

/ The Chemical Brothers, Galvanize

 


"O silêncio era tão denso, que até parecia retinir nos meus ouvidos o eco perdido que ressoa nos túneis das minas, nas celas, nos abrigos de guerra, nos sítios sem ar."

/ JM Coetzee, A Vida e o Tempo de Michael K

 


Sussurrando:

/ Feist, One Evening

 


"Esta é sobre ti, tem amor e ódio
É para ires ouvindo nestas horas de ócio
Ínfima parte de um sonho perdido
Liberei-o, já o tinha esquecido
É o sinal...
Espero o momento, na sombra da rua
Ouço uma voz que me lembra a tua
Passei pelo risco de sofrer, por não ler os teus sinais
É o sinal... para recomeçar!

Quero ser gente, quero ver a terra
Chegar a casa e ter alguém à espera
Quero um presente, quero ser bera
Quero ser submissa, quero ser a fera

Leva-me ás areias quentes
Que mastigam os sentimentos e me deixam nua perante os elementos
Ensina-me a escavar, objectos sem estragar
Para que sorrir seja sempre vulgar
Dêm-me de beber, finas gotas desse mel
Para que o meu saber não esteja só no papel
Insita-me a lembrar do teu gosto pelo mar
Para que um dia esteja pronta a zarpar
Espero que amanhã tudo seja diferente
E que tu possas estar presente

Quero ser gente, quero ver a terra
Chegar a casa e ter alguém à espera
Quero um presente, quero ser bera
Quero ser submissa, quero ser a fera

Insita-me a atirar, os dados sem soprar
sem te dizer, seja vulgar...

Quero ser gente, quero ver a terra
Chegar a casa e ter alguém à espera
Quero um presente, quero ser bera
Quero ser submissa, quero ser a fera

Insita-me a tirar, para recomeçar...
Quero chegar a casa e ter alguém à espera
Quero um presente, quero ser bera
Quero ser submissa, quero ser a fera"

/ Mesa, Esquecimento

 


Sussurrando:

/ The Avalanches, Tonight

 


"E então o círculo começa a desenhar-se obliquamente, na fosforescência da sua nudez. Nos interstícios, uma luz rugosa deixa rolar as escamas sem brilho dos peixes mortos.
A tarde é um relâmpago apagado, sem fulgor. São as vésperas da noite , dizem, mas o espaço volatilizou-se, as estrelas, móveis, tombaram em cascata no fundo do poço.
É o vazio do círculo, a sua face excêntrica."

/ Albano Martins, Círculo

 


"Dentro da própria roupa as mãos fazem um intervalo entre o tocar na amante e o segurar na lâmina que mata. As mãos são órgãos susceptíveis de se emocionarem. As mãos não terão apenas sentimentos tácteis, mas também sentimentos mais complexos: como a grande tristeza. Supor que há elementos do corpo que não sofrem nem se exaltam, que apenas assistem, parece um equívoco evidente de uma certa anatomia analítica que vê cada bocado de corpo como louco individual, com o seu mundo próprio. Não há nenhum órgão que possas extrair do corpo, mantendo este vivo, de modo a que do organismo expulses apenas as emoções. Só extrairás as emoções quando eliminares por completo o organismo. A última célula que sobrevive ainda sente e
provavelmente pensa."

/ Gonçalo M. Tavares, A Colher de Samuel Beckett e Outros Textos

 


"Vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver

Amanhã
espero sempre um amanhã
e acredito que será
mais um prazer

E a vida
é sempre uma curiosidade
que me desperta com a idade
interessa-me o que está para vir

E a vida
em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir
encontrar, renovar, vou fugir ao repetir"

/ Humanos, Quero é Viver (original de António Variações)

 


"As mãos nos bolsos de Klaus. Como era estranho aquele seu gesto de esconder as mãos nos bolsos. As mãos e os olhos eram o fundamento da guerra: sem mãos é impossível odiar, odeias pela ponta dos dedos, como se estes fossem o canal habitual e único de uma certa substância química má. As mãos nos bolsos são um processo de educar o ódio, processo lento quando comparado com aquele bem mais forte que é a amputação dos braços. Mas só com as mãos nos bolsos os homens já acalmam. Com as mãos nos bolsos um homem percebe que não é Deus. Não se chega às coisas. Se tocares no mundo com a cabeça obterás desse toque sentimentos secundários; afastados de uma intensidade mínima a que a existência das mãos te habituou. As mãos tornam-te intenso. O obsceno - isso mesmo -, o obsceno que é o homem que na guerra, mesmo que numa pausa, põe provocadoramente as mãos nos bolsos. Assumir que não se é Deus em momento de guerra acto corajoso e, por estranho que pareça, o único divino. Só os cobardes fingem que são Deus. Mas por momentos a vida de Klaus perde os seus órgãos máximos do raciocínio que são as mãos: os órgãos especializados nesse instinto primário que é sobreviver: instinto primário e também instinto último alargar um corpo. Com as mãos nos bolsos Klaus não pode deixar de parecer um imbecil, um homem que não pensa. Claro que as mãos nos bolsos fazem acumular emoções no resto do corpo. Como se os dedos, às escondidas, destapassem algo. Com as mãos nos bolsos sente-se mais, pensa-se menos."

/ Gonçalo M. Tavares, A Colher de Samuel Beckett e Outros Textos

 


Sussurrando:

/ Smashing Pumpkins, The End is The Beginning is The End

(Porque no silêncio me senti tocada com as vossas palavras.)

 


Adeus a todos.

/ THE END

 


"Everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime."

Sussurrando:

/ Beck, Everybody's Gotta Learn Sometime

 


"Aconteceu-me qualquer coisa; já não posso duvidar. Qualquer cosia que me veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. A dada altura senti-me um tanto esquisito, algo incomodado, mais nada. Tomado o seu lugar, essa coisa não mexeu mais, ficou como estava, e pude assim convencer-me de que não tinha nada, que tinha sido um rebate falso. Mas eis que o mal começa a propagar-se."

/ Jean-Paul Sartre, A Náusea

 


"Qualquer coisa podia ser verdade. Eram tolices as chamadas leis naturais. Era tolice a lei da gravidade. "Se eu quisesse", dissera O'Brien, "poderia flutuar no ar como uma bola de sabão". Winston raciocinara. "Se ele pensa que flutua no ar e se eu simultaneamente pensar que o vejo flutuar no ar, então a coisa de facto acontece." De repente, como um destorço submerso que aflora à tona, um pensamento rompeu-lhe o cérebro: "Não acontece de facto. Nós é que imaginamos. É uma alucinação." Fez o pensamento recuar instantaneamente. Era óbvio o seu engano. Pressupunha a existência nalguma parte, fora do indivíduo, de um mundo "real" onde coisas "reais" acontecessem. Mas como poderia existir esse mundo? Que sabemos das coisas, a não ser através da nossa mente? Tudo o que acontece, acontece na nossa cabeça. E o que acontece em todas as mentes de facto acontece."

/ George Orwell, 1984

 


"Estou de novo sozinho.
Mas agora estou em cima do escadote.
É melhor.
(Olha para todos os lados. Tédio).
Afinal é igual."

/ Gonçalo M. Tavares, A Colher de Samuel Beckett e Outros Textos

 


"Não tinhas
nome. Existias
como um eco
do silêncio. Eras
talvez
uma pergunta
do vento."

/ Albano Martins, Como um Eco

 


"Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
I want to shoot
The whole day down."

/ Boomtown Rats, I Don't Like Mondays

 


"Porque não soube merecer a glória, a mais suave
de me deitar a teu lado
e que o sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou"

/ António Ramos Rosa

 


"Go...
Go to the mountain if you must
Go to the burning bush
Happy would ease your troubled mind
How do the fade just stay behind?"

/ Handsome Boys Modeling School & Roisin Murphy, The Truth

 


"WHEN on thy pillow lying,
Half listen, I implore,
And at my lute's soft sighing,
Sleep on! what wouldst thou more?

For at my lute's soft sighing
The stars their blessings pour
On feelings never-dying;
Sleep on! what wouldst thou more?

Those feelings never-dying
My spirit aid to soar
From earthly conflicts trying;
Sleep on! what wouldst thou more?

From earthly conflicts trying
Thou driv'st me to this shore;
Through thee I'm thither flying,--
Sleep on! what wouldst thou more?

Through thee I'm hither flying,
Thou wilt not list before
In slumbers thou art lying:
Sleep on! what wouldst thou more?

/ Goethe, Night Song
 

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